quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Viver x Bergamnn x Liv Ullmann x atualidade


O que será viver? Será como muitos preferem, vivermos centrados no nosso próprio umbigo? Fingindo não ver o "ovo da serpente"' que sempre está sendo gestado? Sinto em muitos, a tendência de querer fechar os olhos para tudo que, segundo eles, não é prazeroso...

Como se ficar com um amigo, quando ele precisa de nós, não tivesse a mesma beleza de um pôr-de-sol. Algumas vezes, sinto-me muito sózinha neste planetinha. Porém quando assisto um filme do Bergmann, como o que vi ontem - SARABAND - e observo o rosto da Liv Ullman, sem plásticas, com marcas tão lindas do tempo, sinto-me incluída em um mundo que procura a bondade, a verdade ou o que ela seja, de uma maneira sincera.

Assisti o eterno Bergman, faz-me entender um pouco o que é ser humano, o que é ser mulher. A personagem da Marianne ilumina o meu mundo!

sábado, 20 de outubro de 2007

Exibicionismo x miséria x abraços


Em um mundo onde 2/3 da população vivem em extrema miséria, alguns privilegiados podem oferecer a uma filho de 3 anos, como presente de aniversário, um helicoptéro ou um apartamento de R$ 3.000.000, onde brincam de casinha de boneca. Não satisfeitas, exibem-se de uma maneira espalhafatosa. E o que estas pessoas fazem pela humanidade? Absolutamente nada. A não ser, serem guardiões de um sistema que permite aos mais espertos explorarem os desprotegidos de várias formas. Uma delas é veiculando mentiras, inescrupulosas e lesivas as pessoas humildes, que não avaliam o quanto são roubadas. Pois, a ambição destas pessoas não tem limites. Refiro-me a este assunto, pois foi veiculado na grande imprensa, a carta de um apresentador de TV, que fora assaltado e perdera o seu ROLEX avaliado em R$ 10.000,00. Como todo bom exibicionista, não perdeu a chance de expor o seu pensamento, que é o de uma capitalista cruel e insensível. Diz no texto, que paga altos impostos, como se nós não pagassemos! O referido senhor, além de ter uma pousada em Fernando de Noronha - que é uma reserva ambiental, - , e é claro, onde nenhum mortal comum e honesto conseguiria construir nem uma casinha, pois seria considerado invasor, faz propaganda de financeiras que assediam as pessoas nas ruas, de várias cidades brasileiras de uma forma brutal. Os juros cobrados por estas instituições são um assalto, só que não à mão armada. Qual a diferença?

Em uma sociedade, onde o ensino sempre foi relegado ao último plano, é normal a maioria das pessoas não refletirem sobre nada. Aliás, ainda idolatram seus algozes, cujos filhos estudam na Escola Americana, pois o grande sonho deles é brilhar em Miami.

Pensando nisto, deixo aqui um pensamento do professor da Universidade de Londres - Eric Hobsbawn - que nos ajuda a refletir.


O problema é difícil e, tudo indica, está em aberto. De qualquer forma Hobsbawn insiste que “os socialistas estão aqui para lembrar ao mundo que em primeiro lugar devem vir as pessoas e não a produção. As pessoas não podem ser sacrificadas”, assegurando que “o futuro do socialismo assenta-se no fato de que continua tão necessário quanto antes, embora os argumentos a seu favor já não sejam os mesmos em muitos aspectos”.

Verdadeiramente, o meu sonho era que pudessémos viver em uma sociedade onde pudessemos nos abraçar com muito carinho.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Che


Amigos,

Deixo com vocês o lindo artigo do Saramago em homenagem ao Che. Beijos.

"40 anõs sin Che"

Breve meditação sobre um retrato de Che Guevara Por José Saramago

Não importa que retrato. Qualquer um: sério, sorrindo, arma em punho, com Fidel ou sem Fidel, dizendo um discurso nas Nações Unidas, ou morto, com o dorso nú e olhos entreabertos, como se do outro lado da vida ainda quisera acompanhar o rastro do mundo que teve que deixar, como se não se resignasse a ignorar para sempre os caminhos das infinitas criaturas que estavam por nascer. Sobre cada uma dessas imagens se poderia reflexionar profundamente, de um modo lírico ou de um modo dramático, com a objetividade prosaica do historiador ou simplesmente de alguém que se dispõe a falar do amigo que descobre haver perdido porque não o chegou a conhecer. Ao Portugal infeliz e amordaçado de Salazar e de Caetano chegou um dia o retrato clandestino de Ernesto Che Guevara, o mais célebre de todos, aquele feito com manchas fortes de negro e vermelho, que se converteu na imagem universal dos sonhos revolucionários do mundo, promessa de vitórias a tal ponto férteis que nunca poderiam se degenerar em rotinas nem em exepcismos, antes dariam lugar a outros muitos triunfos, o do bem sobre o mal, o do justo sobre o inícuo, o da liberdade sobre a necessidade. Emoldurado ou fixo na parede por meios precários, esse retrato esteve presente em debates políticos apaixonados na terra portuguesa, exaltou argumentos, atenuou desânimos, namorou esperanças. Foi visto como um Cristo que havia descido da cruz para descrucificar a humanidade, como um ser dotado de poderes absolutos que fosse capaz de extrair de uma pedra a água na qual se mataria toda a sede, e de transformar essa mesma água no vinho com que se beberia o esplendor da vida. E tudo isto era certo porque o retrato de Che Guevara foi, aos olhos de milhões de pessoas, o retrato da dignidade suprema do ser humano. Mas foi também usado como adorno incongruente em muitas casas da pequena e da média burguesia intelectual portuguesa, para cujos integrantes as ideologias políticas de afirmação socialista não passavam de um mero capricho conjuntural, forma supostamente arriscada de ocupar ócios mentais, frivolidade mundana que não pôde resistir ao primeiro choque da realidade, quando os fatos vieram exigir o cumprimento das palavras. Então, o retrato do Che Guevara, testemunha, primeiro, de tantos inflamados anúncios de compromisso e ação futura, juiz, agora, do medo encoberto, da renúncia covarde ou da traição aberta, foi retirado das paredes, escondido, na melhor da hipóteses, no fundo de um armário, ou radicalmente destruído, como se fosse motivo de vergonha. Uma das lições políticas mais instrutivas, nos tempos de hoje, seria saber o que pensavam de si mesmos esses milhares e milhares de homens e mulheres que em todo o mundo tiveram algum dia o retrato de Che Guevara na cabeceira da cama, ou na frente da mesa de trabalho, ou na sala onde recebiam os amigos, e que agora sorriem por haver acreditado ou fingido crer. Alguns diriam que a vida mudou, que Che Guevara, ao perder sua guerra, fez perder a nossa, e portanto era inútil chorar, como uma criança que chora pelo leite derramado. Outros confessariam que se deixaram envolver por uma moda da época, a mesma que fez crescer barbas e cabelos, como se a revolução fosse uma questão de barbeiros. Os mais honestos reconheceriam que lhes dói o coração, que sentem em um movimento perpétuo de um remordimento, como se sua verdadeira vida houvesse suspendida o curso e agora lhes perguntasse, obsessivamente, aonde pensam que vão sem ideais nem esperança, sem uma idéia de futuro que dê algum sentido ao presente. Che Guevara, se assim pode dizer, já existia antes de ter nascido. Che Guevara, se assim pode afirmar, continua existindo depois de morto. Porque Che Guevara é somente o outro nome do que há de mais justo e digno no espírito humano. O que devemos despertar para conhecer e conhecemos, para agregar o passo humilde de cada um ao caminho de todos. José Saramago, escritor e Premio Nobel de Literatura.